Startup desenvolve plataforma com jogos e sensores para auxiliar crianças com TDAH e ansiedade no controle emocional
Uma startup de São José dos Campos, a Self Intelligence for Life, fundada em 2022, desenvolveu um sistema inovador que une jogos, sensores biométricos e métodos terapêuticos para auxiliar crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) a gerenciarem suas emoções. O projeto contou com o apoio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, em colaboração com o Sebrae SP.
A tecnologia monitora a criança enquanto ela joga. O sistema recompensa o jogador quando ele demonstra calma e adota um padrão de respiração adequado. Gabriella Faria, engenheira biomédica e CEO da startup, explica que a plataforma avalia em tempo real o estado emocional da criança através dos sensores, oferecendo benefícios quando ela consegue se acalmar e praticar a autorregulação.
A iniciativa surgiu a partir da necessidade observada por Renata Casali, neuropsicopedagoga especialista em reabilitação cognitiva. Ela relatou a dificuldade em encontrar ferramentas eficazes para acalmar crianças durante as sessões terapêuticas, o que frequentemente consumia até 20 minutos, prejudicando a intervenção. “Às vezes ela levava 15 a 20 minutos nesse processo antes da atividade terapêutica, o que compromete o tempo e a efetividade da intervenção”, conta Faria.
Embora inicialmente criada para TDAH, a plataforma também se mostra eficaz para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e sintomas de ansiedade. O design da interface foi cuidadosamente elaborado, considerando as particularidades desse público, com estímulos, cores e sons adaptados para crianças com sensibilidade sensorial elevada.
O aumento na procura por tratamento para ansiedade infantil é notório. Dados do Ministério da Saúde indicam um crescimento superior a 1.300% nos atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) para transtornos de ansiedade em crianças de 10 a 14 anos entre 2014 e 2024. Paralelamente, o número de alunos com TEA na educação básica atingiu 918.877 entre 2023 e 2024, um aumento de 44,4%, conforme o Censo Escolar.
O sistema da Self Intelligence for Life é composto por sensores biométricos, um aplicativo com diversos jogos e uma plataforma de gestão para terapeutas. Os sensores, disponíveis em formatos como cinta torácica, braçadeira e clipe de orelha, monitoram a variabilidade da frequência cardíaca, um indicador reconhecido para a medição de níveis de estresse. A tecnologia empregada assemelha-se à encontrada em smartwatches, porém com métricas e processamento específicos.
Atualmente, a plataforma conta com oito jogos de diferentes níveis de dificuldade. Ao vestir o sensor e iniciar um jogo, a criança tem seu estado emocional compreendido em tempo real pela plataforma. Os jogos incentivam a respiração controlada, uma técnica não farmacológica estudada como alternativa ou complemento a tratamentos para TDAH e ansiedade.
Em um dos jogos, a criança aprende um padrão respiratório auxiliando uma baleia a se acalmar. Outro jogo, considerado mais desafiador, envolve um caranguejo que precisa organizar objetos na ordem correta sob pressão, exigindo que o jogador mantenha a calma e a respiração adequada. “É superdifícil porque tem de respirar, colocar os objetos no lugar e na ordem corretos enquanto o vento leva o lixo embora. E não adianta ficar nervoso”, detalha Faria.
Cada jogo tem duração aproximada de três minutos, tempo suficiente para gerar resultados observáveis. O terapeuta desempenha um papel crucial no processo, planejando as sessões, selecionando os jogos mais adequados e apresentando o sensor de forma lúdica à criança. A startup adaptou uma trilha de aprendizado que inicia com jogos mais simples para crianças com TEA, que podem se frustrar com desafios complexos, e avança para jogos mais estimulantes para TDAH, visando manter o foco.
A empresa também enfatiza o uso consciente de telas, recomendando que a plataforma seja utilizada como um exercício, com sessões curtas e regulares, em vez de longos períodos de uso. A sugestão é de até três sessões diárias de três minutos em casa, totalizando nove minutos, e, no consultório, geralmente no início e fim das sessões. “Recomendamos o uso consciente a partir da avaliação do terapeuta”, ressalta Faria, que também aponta que o uso é indicado apenas durante o acompanhamento clínico, sem uso autônomo pela família sem supervisão profissional.
A cada sessão, terapeutas podem acessar relatórios detalhados com métricas como sinais do sensor, tempo de jogo e desempenho, que podem ser compartilhados com os pais para acompanhar a evolução da criança. A plataforma prevê o lançamento de novos jogos periodicamente, incluindo opções focadas em dificuldades fonéticas e o uso de inteligência artificial para personalização avançada. Há também planos de expansão para outras faixas etárias, com o desenvolvimento de uma versão voltada para outros públicos.
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